Na semana passada, o ministro do STF, Flávio Dino, questionou como ninguém viu as irregularidades do Banco Master. O escândalo veio a público com a liquidação do banco e a prisão de Daniel Vorcaro em novembro do ano passado.
Especialistas concordam que Vorcaro e seus companheiros usaram a favor do Master os sistemas regulatório, político e jurídico que incentivam a omissão. As estimativas apontam prejuízos de R$ 60 bilhões, superando crises bancárias dos últimos 20 anos e as perdas da Lava Jato.
O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, afirma que a dinâmica da omissão contaminou as estruturas de regulação e fiscalização. Ele apresenta duas leituras para o caso: a primeira é a da falha individual e do conluio. A segunda é que os sistemas não oferecem incentivos à reação, fazendo com que cada agente perceba que tem mais a perder vendo do que não vendo.
Em 2024, três gestores da Caixa Asset foram afastados após redigirem um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Master. Em 2025, o então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, votou contra a Ambipar em um caso envolvendo o Master e, nove dias depois, renunciou. O interino Otto Lobo reverteu o voto, e o presidente Lula o indicou para a presidência da CVM.
O economista Marcos Lisboa aponta o risco de sanções para quem tenta evitar a crise antes que ela se torne incontestável. O TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”.
Nos Estados Unidos, existe a figura do “whistleblower”. A False Claims Act garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act criou um programa na SEC que paga de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão.
Lisboa também cita o tratamento difuso da responsabilidade solidária no mercado financeiro. As corretoras são responsáveis pelos produtos que oferecem e deveriam alertar os investidores. Balanços do Master já mostravam riscos, como a concentração em ativos de baixa liquidez.
O economista Roberto Teixeira da Costa diz que a fragilidade do Master era identificável. Para ele, a ganância e as altas comissões fizeram pessoas sacrificarem o raciocínio. Ele defende a recalibragem do FGC para reembolsar 75% do valor investido.
O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, destaca a presença de altas autoridades na rede de influência de Vorcaro. Para ele, essa rede, mesmo que passivamente, serve para intimidar e desincentivar investigações.